Tal é o poder de influência da vaidade sobre os indivíduos (e não me excluo, absolutamente) que levei sete meses para finalmente escrever este post. Não que o assunto permanecesse obscuro para mim e não soubesse ao certo o que dizer, mas me fiz exigências tão altas quanto à qualidade do que deveria escrever por aqui que todas as tentativas me pareceram inferiores ao meu intento. Coisas da vaidade! Impulsiona ou imobiliza, como veremos adiante. O caso é que finalmente me rendi a uma necessidade que espero tornar-se hábito: escrever. E mais do que isso, escrever para ser lido. Admiro a coragem e o desprendimento daqueles que, sem constrangimento ou hesitação, exibem seus textos publicamente. Pensava que um texto precisaria amadurecer, refinar-se, satisfazer completamente as expectativas do autor, antes de ser levado a público. Ou mesmo antes de ser escrito. O arranjo do argumento deveria ser minuciosamente planejado antes de os dedos saltirarem no teclado, concedendo às ideias sua forma definitiva. Temo ter que abandonar esse procedimento, pelo risco de jamais vir a escrever coisa alguma. Alea jacta est!
Dito isso, creio que posso admitir, definitivamente, que me reconciliei com a vaidade. E aceitarei as censuras que poderão desencadear esse anúncio, pelo menos até que meus acusadores leiam o restante deste texto, pois, como homem da nossa cultura, me acostumei a considerá-la negativa e prejudicial. A vaidade envenena as relações, faz julgar-se superior quem não é, justifica ações danosas em defesa do orgulho ferido, distingue o igual e esconde o homem de si mesmo. O indivíduo excessivamente vaidoso é, frequentemente, desagradável. No entanto, é preciso perceber que a vaidade, que é mais impulso do que ação, só se torna negativa por associação, não sendo, portanto, em essência. Explico: seu valor positivo ou negativo depende de em que o homem a deposita. O caráter de um homem é aquilo pelo que deseja ser admirado. Se quer ser admirado por seus bens, sua vaidade, força motriz, será direcionada para o acúmulo de bens. Se por sua beleza, para sua aparência. Por outro lado, se um homem escolher fazer-se admirar pelas suas virtudes morais, a vaidade motivará sua boa conduta.
Todo homem sente necessidade de ser admirado por seus semelhantes, essa é a única constante nas personalidades. A vaidade é o que impulsiona a ação dos indivíduos na sociedade. A vaidade constituiu a civilização, criou a arte, construiu o conhecimento, ergueu cidades. Motivou estas considerações acerca de si mesma. Como força motriz da ação humana, é responsável por todas as nossas realizações. Quem poderá condená-la senão movido por seu próprio impulso invencível? É a causa da própria vilania. A vaidade produz santos e monstros.
Há algumas linhas atrás, sugeri que a vaidade se traduz em ação. Me precipitei. Argumenta contrariamente a isso o primeiro parágrafo deste texto, que trata, fundamentalmente, de seu aspecto paralisante. Como já foi dito, o julgamento moral sobre a vaidade não deveria recair sobre ela própria, mas sobre aquilo que é a ela, na personalidade, associado. É o que me ocorreu agora chamar – muito astuciosamente, sou obrigado a reconhecer – de componente horizontal da vaidade, sua manifestação em relação à sociedade. No que diz respeito ao indivíduo, porém, a considerarei em seu componente vertical, isto é, em sua capacidade potencial de levar o homem à ação ou à inatividade. A vaidade produz gênios e medíocres.
Assim como todo homem busca constantemente a admiração de seus semelhantes, consoante o mesmo mecanismo, teme a rejeição dos mesmos. O indivíduo pende entre essas duas forças, que são manifestações de uma única essência, aquilo que é motivação, tema e título deste texto. Se o indivíduo tende para o medo, a vaidade atuará como uma força paralisante tão poderosa quanto é impulsionadora para aqueles que se inclinam para a ousadia. Mais uma vez, está no homem, e não na vaidade, a responsabilidade sobre sua manifestação concreta. Fortuna favet fortibus!
Movido por estas especulações, me reconciliei com a vaidade. Se pudesse, lhe faria uma estátua. Aliás, diante de tão importante papel, me admira que os gregos não a tenham deíficado. Os egípcios o fizeram, sob o nome Hator, que, não sem razão, possuía a forma de uma vaca. A vaidade nutre o homem.
sábado, 23 de janeiro de 2010
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