sábado, 1 de agosto de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
Cúmplices
Tu sabes, eu sei.
Cúmplices na desdita,
O que importa ainda
Aqueles que dormem?
E o que pensam eles
De olhos fechados?
Tu sabes, eu sei.
Na solidão do retiro,
O que importa ainda
Se preferes o sono?
E o que o espanta,
Fazendo-te sonâmbula?
Tu sabes, eu sei.
No encanto do guardado,
O que importa ainda
Se não queres lembrar?
E o que escondes,
Sem poder esquecer?
Tu sabes, eu sei.
Na contradição sem saída,
O que persiste ainda?
Presença e distância,
Aflição e letargia,
Constância esquiva?
Tu sabes, eu sei.
Cúmplices na desdita,
Na solidão do retiro,
No encanto do guardado,
Na contradição sem saída,
O que resiste ainda?
Tu sabes, eu sei.
De todo o não-dito,
O que resta ainda:
Com o indicador detenho os lábios.
Silêncio.
Permanecerá segredo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Desvario de um colibri
De um coração em flor
Um pássaro aprendeu,
Pelos maus caminhos
Da razão infecunda,
A sorver o néctar
Sem espalhar o pólen.
Alma enganosa, enganada,
Rejeitou da natureza o sagrado
E negou-lhe o cerimonial beijo
Que os estames anelam, repletos
De promessas e dos frutos
De renovadas primaveras.
Insensata ave pragmática!
Aquilo de que te esquivas,
Os sublimes ritos dos amores,
É do teu ser o real sustento.
E, por tua mentalidade prática,
Ainda hás de extinguir todas as flores.
sábado, 6 de dezembro de 2025
Minha manhã
Demoras-te ainda?
Quanto tempo levarás
Agora
Para rodear esse círculo?
Apressa-te, minha manhã!
Quanto tempo levarás
Agora
Para irromper renovada?
Ergueu-se uma ponte de chama
Sobre o mar intransponível.
Agora
Para o horizonte há caminho.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Essa chuva com o céu tão claro
Precipita-te, altíssimo
Urano! límpida e fresca
É a chuva,
Que recebem a terra
E as folhagens agradecidas.
Hoje, até sobre precipícios
Caminha-se com tranquilidade.
Só hoje.
Amanhã – quem sabe? –
Reconhecem-se novamente
Os abismos.
Por hora, estaremos gratos e leves,
Como essa chuva.
domingo, 4 de agosto de 2013
Inverno
É já meu espírito
Entardecer de inverno sobre o mar tranquilo.
Me alcança um clamor de profundezas
Que continuamente se elevam.
Me distrai a brisa.
Ao redor tudo flui e passa,
Não este penhasco sólido
– minha consciência em vigília.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Passeio de aerolito
Da gravidade. Não se podiam elevar
Por causa de sua desconfiança,
Preferiram perscrutar com os olhos
O que poderiam na alma acolher
De pouco vale especular à sombra
Da macieira, onde seus pomos pendem.
As maçãs sabem guardar seus segredos.
Ao seu redor sibilam as serpentes
Promessas de recompensas ambíguas
É por estar maduro que o fruto queda.
Amadurecido é o fruto em estado acabado,
Vazio de desabrochar, em seu último suspiro,
E insensato é quem julga uma coisa por seu fim:
A ver em tudo decadência está condenado.
Erga os olhos e estenda a mão.
- Colher o fruto sempre foi um gesto sagrado -
Prove o néctar cuja doçura nos deixa mais leves
E eleve-se velozmente para as alturas
Para um passeio de aerolito.
