terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
sábado, 6 de dezembro de 2025
Minha manhã
Demoras-te ainda?
Quanto tempo levarás
Agora
Para rodear esse círculo?
Apressa-te, minha manhã!
Quanto tempo levarás
Agora
Para irromper renovada?
Ergueu-se uma ponte de chama
Sobre o intransponível.
Agora
Para o horizonte há caminho.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Essa chuva com o céu tão claro
Precipita-te, altíssimo
Urano! límpida e fresca
É a chuva,
Que recebem a terra
E as folhagens agradecidas.
Hoje, até sobre precipícios
Caminha-se com tranquilidade.
Só hoje.
Amanhã – quem sabe? –
Reconhecem-se novamente
Os abismos.
Por hora, estaremos gratos e leves,
Como essa chuva.
domingo, 4 de agosto de 2013
Inverno
Eis um entardecer de inverno sobre o mar tranquilo;
É já meu espírito
Entardecer de inverno sobre o mar tranquilo.
Me alcança um clamor de profundezas
Que continuamente se elevam.
Me distrai a brisa.
Ao redor tudo flui e passa,
Não este penhasco sólido
– minha consciência em vigília.
É já meu espírito
Entardecer de inverno sobre o mar tranquilo.
Me alcança um clamor de profundezas
Que continuamente se elevam.
Me distrai a brisa.
Ao redor tudo flui e passa,
Não este penhasco sólido
– minha consciência em vigília.
domingo, 20 de janeiro de 2013
Passeio de aerolito
Homens graves nos impuseram a lei
Da gravidade. Não se podiam elevar
Por causa de sua desconfiança,
Preferiram perscrutar com os olhos
O que poderiam na alma acolher
De pouco vale especular à sombra
Da macieira, onde seus pomos pendem.
As maçãs sabem guardar seus segredos.
Ao seu redor sibilam as serpentes
Promessas de recompensas ambíguas
É por estar maduro que o fruto queda.
Amadurecido é o fruto em estado acabado,
Vazio de desabrochar, em seu último suspiro,
E insensato é quem julga uma coisa por seu fim:
A ver em tudo decadência está condenado.
Erga os olhos e estenda a mão.
- Colher o fruto sempre foi um gesto sagrado -
Prove o néctar cuja doçura nos deixa mais leves
E eleve-se velozmente para as alturas
Para um passeio de aerolito.
Da gravidade. Não se podiam elevar
Por causa de sua desconfiança,
Preferiram perscrutar com os olhos
O que poderiam na alma acolher
De pouco vale especular à sombra
Da macieira, onde seus pomos pendem.
As maçãs sabem guardar seus segredos.
Ao seu redor sibilam as serpentes
Promessas de recompensas ambíguas
É por estar maduro que o fruto queda.
Amadurecido é o fruto em estado acabado,
Vazio de desabrochar, em seu último suspiro,
E insensato é quem julga uma coisa por seu fim:
A ver em tudo decadência está condenado.
Erga os olhos e estenda a mão.
- Colher o fruto sempre foi um gesto sagrado -
Prove o néctar cuja doçura nos deixa mais leves
E eleve-se velozmente para as alturas
Para um passeio de aerolito.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A identidade e a máscara, um ensaio sobre A Gaivota de Anton Tchekhov
A tensão entre
o individual e o social é um tema recorrente nas obras de Tchekhov, tanto em
suas peças como nos contos. Em instâncias diversas da vida em sociedade, o
autor reconhece o conflito entre anseios pessoais e exigências sociais, que se
manifesta através da criação de máscaras, de personagens de que nos servimos
nas relações com outros indivíduos. Em contos como “O gordo e o magro” e “A
dama do cachorrinho”, por exemplo, Tchekhov nos elucida, embora sob diferentes
aspectos, como a posição que assumimos diante da sociedade pode interferir nas
relações pessoais. No primeiro, acompanhamos de que maneira uma descontraída
conversa entre amigos de infância pode adquirir as formalidades de uma
audiência quando são reconhecidas as posições sociais desempenhadas por aqueles
homens – isto é, quando as personagens que representamos diante da sociedade
assumem o primeiro plano nas relações. A cumplicidade da infância compartilhada
se converte em distância entre classes; a cordialidade, em bajulação. É
possível perceber a influência dessa mesma tensão em “A dama do cachorrinho”.
No entanto, é entre dois amantes que se estabelece uma distância em função de
suas personagens sociais. O casamento arranjado de Anna, que determina sua
posição social, assim como o já desgastado casamento de seu amante, que, por
sua vez, lhe confere sua máscara de homem respeitável, impossibilitam e, ao
mesmo tempo, alimentam seu romance secreto. A superficialidade da relação que
mantêm, que lembra mais uma fuga de seus papéis sociais do que uma convivência
repleta de afinidades, como seria de esperar de um romance, nos faz pensar se
não é pelos personagens que representam um para outro que estão efetivamente apaixonados.
Seja como for, é o conflito entre os anseios pessoais e as exigências sociais o
que conduz o conto. O impasse em que se encerra parece refletir a
impossibilidade de solução para esse dilema inerente à situação humana. Aliás, em
“A dama do cachorrinho”, Tchekhov desvenda, de modo excepcional, o modo como os
personagens assumidos pelos indivíduos não se restringem somente à manutenção
da posição social e atingem até mesmo as relações pessoais – característica que
aproxima o conto de sua peça “A Gaivota” –, pois parece ser a busca pela
representação de certos papéis, de fantasias que idealizamos, para escapar ao
tédio ou para ornamentar nossa imagem, o fio condutor dessas histórias. Gúrov,
o amante da dama do cachorrinho, Anna, é traído pelo próprio personagem que buscava
representar em sua aventura amorosa. De início, vemo-no bancar o indiferente
diante da crise de consciência de Anna, com quem de início pretendia viver uma
relação casual, porém, uma vez experimentada essa embriaguês da vaidade e de
fuga da rotina, Gúrov passa ao temeridade de um homem que viaja em busca de sua
amada. As personagens que buscamos representar frequentemente voltam-se contra
nós, parece sugerir o autor.
Na peça “A
Gaivota”, de maneira semelhante, são as personagens que os indivíduos anseiam
representar, ou preservar, os seus próprios carrascos: Trepliov e Ninca buscam
a concretização de suas posições como escritor e atriz; Trigórin e Arkádina,
por outro lado, afligem-se com a possibilidade de caírem na obscuridade, isto
é, perderem essas mesmas posições, mesmo que o escritor não seja tão explícito
nessa preocupação quanto a mãe de Trepliov, que, a todo momento, busca reforçar
e confirmar, mediante as opiniões das pessoas ao seu redor, sua posição como
atriz famosa e sua aparência jovem, superficialidades que talvez sirvam para
compensar sua carência de identidade. Trigórin, de maneira diversa, expressa em
várias ocasiões o desejo de escapar ao seu papel de escritor, refugiando-se em
ocupações comuns, como caminhar ou pescar, mas é possível que se tenha deixado
revelar em sua conversa com Nina, quando afirma que é compelido a escrever
constantemente, como se fosse um vício, um prego cravado em seu cérebro – e, em
seguida, pragueja contra vaidade.
Enquanto
Arkádina e Trigórin poderiam representar o temor diante de um abismo que se
aproxima, a dissolução de suas personagens sociais e, com isso, de si mesmos, é
deste mesmo vazio que Nina e Trepliov buscam emergir para conquistar suas posições.
Talvez por isso seja o nada, a ausência de formas distintas, de identidades, o tema
da primeira peça que realizam. De certo modo, é verossímil afirmar que é a
busca por esse “lado de fora”, por emergir do vazio de suas existências
particulares para o reconhecimento social, o que põe em movimento as
personagens em “A Gaivota” – como um impulso autônomo e inevitável, assim como
o que conduz um pássaro em direção a um lago, superfície espelhada, que reflete,
assim como o olhar do outro, e que também aplaca a sede.
Em certo
sentido, pode parecer reveladora a compulsão de Trigórin por fixar a fluidez
constante da existência em arte, em objeto transcendente, com suas coleções de
frases, metáforas e impressões, sobretudo quando nos lembramos do pedido que
fez a Sórin para que empalhasse a gaivota abatida por Trepliov, pedido do qual,
posteriormente, não se lembra – seria esse esquecimento uma autonegação, uma
cegueira do seu próprio conflito?
No desfecho,
Tchekhov nos coloca diante de duas possibilidades de conclusão para os anseios
daqueles dois jovens, Nina e Trepliov, ambos aparentemente desventurados, mas
que, apesar disso, expressam trajetórias perfeitamente opostas: uma na direção
do ser, a outra, do não-ser. Trepliov inicia sua carreira como escritor,
adquirindo até mesmo certo renome, mas suas obras carecem de substância,
parecem exprimir o vazio de uma identidade apenas aparente, de uma máscara, de
uma imagem carente de essência. Seu suicídio, ao final da peça, concretiza esse
movimento em direção ao não-ser, ao vazio, devido ao fracasso de Trepliov em
constituir uma identidade verdadeira. Já Nina, embora à primeira vista sofra um
desfecho semelhantemente desafortunado, com uma carreira sem notoriedade, sem o
glamour a que ela aspirava, prossegue. Em sua última conversa com Trepliov, suas
palavras de adeus remetem às de alguém que parte em uma jornada; contudo, não
em busca de uma meta, de um lago, como uma gaivota, mas sem ponto de chegada,
apenas de partida. Nina parece movida por uma força interna e não em função de
algo externo, de reflexos, de opiniões, de máscaras. Seu movimento caracteriza-se
pela força e autodeterminação próprias do ser, da identidade que se realiza na
ação, não na aparência. Ela rejeita o desfecho pressagiado por Trepliov e
Trigórin, renega seu papel como gaivota, sua desdita, e afirma sua identidade
como atriz. Sua despedida tem caráter de prelúdio. Recordemos, por fim, as
palavras da jovem atriz:
“Eu sou uma gaivota... Não, não é
isso. Eu sou uma atriz. É isto!”
“Agora não sou mais assim [o tema
para um pequeno conto, uma gaivota]... sou uma atriz de verdade, represento com
satisfação, com entusiasmo, uma embriaguez me domina. (...) o tempo todo
caminho e sinto que meu espírito se torna mais forte a cada dia (...) o que
importa não é a glória, não é o esplendor, não é aquilo com que eu tanto
sonhava, mas sim a capacidade de suportar. (...) Eu acredito e, assim, nem
sofro tanto e, quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida.”
sábado, 26 de maio de 2012
A mariposa e a lâmpada
Alça alvoroçado voo
E ávida avança veloz
Malfadada mariposa
A luz que te provoca
Em liso vidro impõe
invisíveis liames
Lépida acerca-se
Da lâmpada, fascinada
Ergue voo novamente
Chamuscada
Investe e teima
Cessa e volve
Descreve arbitrariamente
Descompassada dança
Ora é a mariposa que se queima
Ora quem se queima é a lâmpada.
E ávida avança veloz
Malfadada mariposa
A luz que te provoca
Em liso vidro impõe
invisíveis liames
Lépida acerca-se
Da lâmpada, fascinada
Ergue voo novamente
Chamuscada
Investe e teima
Cessa e volve
Descreve arbitrariamente
Descompassada dança
Ora é a mariposa que se queima
Ora quem se queima é a lâmpada.
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