Cada dia prolonga
a espera
Pela palavra redentora,
Que a prudência cala,
E a falta que isso faz.
Cuidado! – a máscara fala –
Não dê nem passo a mais!
Há um espelho dupla-face
Entreposto às duas partes
Esse orgulho que não cede
A dar explicações demais.
Cuidado! – a máscara pede –
Não dê nem um passo a mais!
Talvez seja a morte
Ou então é o norte
O coração se interroga
Se disso ainda é capaz.
Cuidado! – a máscara roga –
Não dê nem um passo a mais!
A consciência veraz exige,
Incerta, a intenção evita
A via torta que resta aberta
Sem o peso que isso traz.
Cuidado! – a máscara alerta –
Não dê nem um passo a mais!
Não se delega à passividade
O que só a confiança pode
Resolver a indecisão aflita
Que nada ainda desfaz.
Cuidado! – a máscara grita –
Não dê nem um passo a mais!
Talvez não importe
Ou então é a sorte
Que assim nos chama
A atravessar esses umbrais
Adiante! – a coragem clama –
É um passo agora ou jamais!
domingo, 9 de agosto de 2026
Um Passo a mais
sábado, 1 de agosto de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
Cúmplices
Tu sabes, eu sei.
Cúmplices na desdita,
O que importa ainda
Aqueles que dormem?
E o que pensam eles
De olhos fechados?
Tu sabes, eu sei.
Na solidão do retiro,
O que importa ainda
Se preferes o sono?
E o que o espanta,
Fazendo-te sonâmbula?
Tu sabes, eu sei.
No encanto do guardado,
O que importa ainda
Se não queres lembrar?
E o que escondes,
Sem poder esquecer?
Tu sabes, eu sei.
Na contradição sem saída,
O que persiste ainda?
Presença e distância,
Aflição e letargia,
Constância esquiva?
Tu sabes, eu sei.
Cúmplices na desdita,
Na solidão do retiro,
No encanto do guardado,
Na contradição sem saída,
O que resiste ainda?
Tu sabes, eu sei.
De todo o não-dito,
O que resta ainda:
Com o indicador detenho os lábios.
Silêncio.
Permanecerá segredo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Desvario de um colibri
De um coração em flor
Um pássaro aprendeu,
Pelos maus caminhos
Da razão infecunda,
A sorver o néctar
Sem espalhar o pólen.
Alma enganosa, enganada,
Rejeitou da natureza o sagrado
E negou-lhe o cerimonial beijo
Que os estames anelam, repletos
De promessas e dos frutos
De renovadas primaveras.
Insensata ave pragmática!
Aquilo de que te esquivas,
Os sublimes ritos dos amores,
É do teu ser o real sustento.
E, por tua mentalidade prática,
Ainda hás de extinguir todas as flores.
sábado, 6 de dezembro de 2025
Minha manhã
Demoras-te ainda?
Quanto tempo levarás
Agora
Para rodear esse círculo?
Apressa-te, minha manhã!
Quanto tempo levarás
Agora
Para irromper renovada?
Ergueu-se uma ponte de chama
Sobre o mar intransponível.
Agora
Para o horizonte há caminho.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Essa chuva com o céu tão claro
Precipita-te, altíssimo
Urano! límpida e fresca
É a chuva,
Que recebem a terra
E as folhagens agradecidas.
Hoje, até sobre precipícios
Caminha-se com tranquilidade.
Só hoje.
Amanhã – quem sabe? –
Reconhecem-se novamente
Os abismos.
Por hora, estaremos gratos e leves,
Como essa chuva.
domingo, 4 de agosto de 2013
Inverno
É já meu espírito
Entardecer de inverno sobre o mar tranquilo.
Me alcança um clamor de profundezas
Que continuamente se elevam.
Me distrai a brisa.
Ao redor tudo flui e passa,
Não este penhasco sólido
– minha consciência em vigília.
