sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A origem da culpa na Civilização Ocidental

Esta não será uma tese nova. Talvez uma maneira nova de expor uma tese antiga. Ou, ainda, é possível que nada, nas linhas seguintes, seja novo, o que, porém, não diminui seu valor. A ideia me ocorreu enquanto lia sobre mitologia grega, mas se refinou numa ida ao supermercado – uma dessas caminhadas produtivas.

Duas linhas de pensamento orientam, fundamentalmente, os rumos da nossa civilização: a herança grego-romana e a religião judaico-cristã. Resumidamente, a primeira nos propiciou um espírito empreendedor e prático diante do mundo; a segunda, uma moralidade caracterizada pela humildade e pela compaixão. A contradição resultante da síntese dessas duas tendências já é conhecida, meu objetivo não é apontar os indícios de sua manifestação na nossa sociedade, tampouco explicar seus mecanismos. Pretendo apenas tentar esclarecer, embora rudimentarmente, sua origem, à luz de certos aspectos dos mitos de cada uma dessas culturas.

Como ocorre a organização do mundo no mito grego? A vitória de Zeus sobre os titãs representa a submissão das forças caóticas da natureza a uma ordem artificial instituída pela ação de um indivíduo. A teogonia grega apresenta a natureza original como caos, ambiente hostil à prosperidade do homem, em que forças frequentemente contraditórias exercem seu poder desmedidamente. Não nos custa perceber essa representação como metáfora para o estado de desamparo do homem anterior ao desenvolvimento da civilização. Diante das forças da natureza, das intempéries, da abundância ou da escassez de alimentos, que precede a agricultura, das enfermidades, enfim, todos esses elementos imprevisíveis, o homem pouco pode fazer. Para que ele possa se beneficiar da natureza e atingir o bem-estar, é preciso ordem. Uma ordem convencionada, os gregos estavam cientes disso, estabelecida e mantida pela força, pela ação organizadora do indivíduo. O Olimpo, certamente, reflete a organização social que, na visão dos helenos, propiciaria a ordem necessária para a manutenção do bem-estar. Cada deus possui uma função, necessária e complementar às demais. Zeus, senhor do Olimpo, zela para que cada parte exerça seu poder de acordo com seus limites, evitando o desequilíbrio entre essas forças individuais. No mito grego, em outras palavras, o benefício do homem é alcançado pela submissão das forças essencialmente caóticas da natureza à ordem convencionada, artificial (em oposição ao natural), humana.

E o que nos diz a mitologia judaico-cristã? Opõe-se ao mito grego desde a criação do ser humano. Afinal, o estado original da natureza, para o homem, é o Éden, em que, ao contrário de encontrar-se desamparado diante de forças imprevisíveis, o homem vive na abundância e na despreocupação de um jardim, criado para satisfazer-lhe todas as necessidades.

Neste ponto, no entanto, é preciso esclarecer de que modo o homem adquire a capacidade de agir sobre a natureza: através do conhecimento. É por meio do conhecimento que a experiência proporciona que o homem se torna capaz de prever em que períodos do ano a plantação deve ser semeada, quando o fruto deve ser colhido, quanta água deve haver disponível e, até mesmo, o modo de levar a água até os campos. O conhecimento permite que o homem transforme e submeta a natureza.

No mito judaico-cristão, o ato de conhecer, representado pelo fruto do conhecimento, é proibido ao homem, constitui uma violação das leis de Deus. O pecado original é o orgulho, desde a queda de Lúcifer. A arrogância do homem, que Deus pune com a expulsão do Éden, é sua pretensão em conhecer, em adquirir poder sobre a natureza, podemos interpretar.

Desse modo, o homem perde o equilíbrio que desfrutava com a natureza e é lançado no mundo social, essencialmente caótico, em que Homo homini lupus. Mundo este sobre o qual Deus virá a agir posteriormente, instituindo suas leis, seus mandamentos.

Diante disso, alguém poderá perguntar: e qual é a relação disso com o sentimento de culpa, afinal? Ora, produtos que somos dessas duas linhas de pensamento, vivemos o conflito entre suas duas visões opostas. Por um lado, somos estimulados a agir sobre o mundo, em busca do nosso bem-estar, através do conhecimento. Obtendo, assim, a satisfação de nossas necessidades mundanas, ligadas ao corpo e à vida prática. Por outro, somos aconselhados a resistir aos apelos da necessidade, dos desejos, compelidos à resignação diante dos fatos da divina providência. O sentimento de culpa, característico da nossa civilização, advém desse dilema, desejamos aquilo que somos repreendidos por satisfazer. O tempora! O mores!

Poder

Já há algum tempo dura uma querela entre mim e um velho amigo a respeito do que mais motiva o homem: a necessidade de admiração ou a vontade de poder. Ele, economista, homem de exatas, argumenta em favor da vontade de poder; eu, filósofo (não me sinto constrangido em reivindicar o título), mais inclinado a questões espirituais do que práticas, defendo a outra alternativa. Como o post anterior enseja essa discussão, sem hesitação, vamos a ela.

A respeito disso, um argumento presente na Ética a Nicômaco sempre despertou minha atenção. Não trata especificamente da mesma questão, mas é oportuno. Examinando uma a uma as virtudes, para determinar aquela cuja posse corresponde à felicidade, Aristóteles elabora a seguinte proposição em relação à honra: de todos os bens, a honra deve ser o mais almejado, pois é apenas em vista dela que os homens buscam os outros bens. Ora, com isso, acredito, o filósofo quis dizer que só buscamos o poder, a riqueza, a beleza, a inteligência, na medida em que desejamos ser admirados pela posse destes. Entretanto, Aristóteles descarta essa hipótese e segue em frente, pois, na Ética, seu objeto era a felicidade, e ele não pretendia, como eu, agora, discutir a fonte da motivação dos homens.

Sem dúvida, desempenhar algum tipo de poder sempre desperta admiração, respeito. Estar em posição de poder, normalmente, implica em uma situação mais segura e confortável nas relações entre as pessoas. Afinal, se estabelece, necessariamente, certo grau de dependência entre as partes, em benefício da parcela mais forte, de maneira que se tornam indissociáveis o poder e a honra (uso aqui o termo no sentido que lhe confere Aristóteles, isto é, característica daquilo que recebe honrarias, distinção).

Além disso, o poder carrega consigo vantagens práticas, que excedem a instância da vida social. Deter algum tipo de poder significa maior acesso aos meios de sobrevivência e, mais do que isso, ao luxo e ao conforto que o estilo de vida de uma cultura pode proporcionar. O poder é uma forma de garantir o próprio bem-estar, assim como o de seus descendentes.

Diante dessas duas qualidades intrínsecas ao poder – despertar a admiração dos homens e proporcionar bem-estar –, parece difícil negar sua proeminência em relação à necessidade de admiração para a motivação dos homens. No entanto, há um fato que não deve ser negligenciado: existem posições que despertam a admiração sem proporcionar poder em intensidade relevante. A arte, o entretenimento, a mídia, são férteis na criação dessas posições. Evidentemente, não ignoro que a fama proporcione alguma medida de poder, principalmente quando a opinião desses indivíduos se torna influente na sociedade, mas, comparativamente com posições mais concretas de poder, tal influência se mostra menos efetiva e capaz de gerar vantagens práticas.

No homem, como no restante dos animais, dois instintos fundamentais agem permanentemente: autopreservação e reprodução. Ambos garantem a perpetuação da espécie e da vida, ultrapassando os interesses do indivíduo, que, aliás, pouco importa para a natureza. Não foi para saciar seus anseios que ela lhe infundiu esses dois impulsos-guias, mas com fins que transcendem sua desprezível existência. Porém, é no indivíduo que esses instintos se realizam efetivamente. E, na sociedade, é que se manifestam como comportamento. Não por coincidência as forças que defini, no início, como norteadoras do comportamento humano, também formam um par. A associação entre esses elementos é evidente. A vontade de poder, caracterizada, principalmente, por proporcionar acesso aos meios de vida, será a manifestação comportalmental do instinto de autopreservação; enquanto a necessidade de admiração, que promove a distinção do indivíduo no grupo, estará ligada ao instinto de reprodução.

Entretanto, apenas essa associação não esclarece o dilema, não aponta a prioridade de uma força sobre a outra. Para isso, teremos de abandonar a especulação no plano dos conceitos e voltar nossa atenção para os fatos. Ora, não é verdade que para realizar seus impulsos sexuais e, mais indiretamente, para despertar a admiração de seus semelhantes, muitas vezes, o homem põe em risco a própria vida? Omnia vincit amor!