sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poder

Já há algum tempo dura uma querela entre mim e um velho amigo a respeito do que mais motiva o homem: a necessidade de admiração ou a vontade de poder. Ele, economista, homem de exatas, argumenta em favor da vontade de poder; eu, filósofo (não me sinto constrangido em reivindicar o título), mais inclinado a questões espirituais do que práticas, defendo a outra alternativa. Como o post anterior enseja essa discussão, sem hesitação, vamos a ela.

A respeito disso, um argumento presente na Ética a Nicômaco sempre despertou minha atenção. Não trata especificamente da mesma questão, mas é oportuno. Examinando uma a uma as virtudes, para determinar aquela cuja posse corresponde à felicidade, Aristóteles elabora a seguinte proposição em relação à honra: de todos os bens, a honra deve ser o mais almejado, pois é apenas em vista dela que os homens buscam os outros bens. Ora, com isso, acredito, o filósofo quis dizer que só buscamos o poder, a riqueza, a beleza, a inteligência, na medida em que desejamos ser admirados pela posse destes. Entretanto, Aristóteles descarta essa hipótese e segue em frente, pois, na Ética, seu objeto era a felicidade, e ele não pretendia, como eu, agora, discutir a fonte da motivação dos homens.

Sem dúvida, desempenhar algum tipo de poder sempre desperta admiração, respeito. Estar em posição de poder, normalmente, implica em uma situação mais segura e confortável nas relações entre as pessoas. Afinal, se estabelece, necessariamente, certo grau de dependência entre as partes, em benefício da parcela mais forte, de maneira que se tornam indissociáveis o poder e a honra (uso aqui o termo no sentido que lhe confere Aristóteles, isto é, característica daquilo que recebe honrarias, distinção).

Além disso, o poder carrega consigo vantagens práticas, que excedem a instância da vida social. Deter algum tipo de poder significa maior acesso aos meios de sobrevivência e, mais do que isso, ao luxo e ao conforto que o estilo de vida de uma cultura pode proporcionar. O poder é uma forma de garantir o próprio bem-estar, assim como o de seus descendentes.

Diante dessas duas qualidades intrínsecas ao poder – despertar a admiração dos homens e proporcionar bem-estar –, parece difícil negar sua proeminência em relação à necessidade de admiração para a motivação dos homens. No entanto, há um fato que não deve ser negligenciado: existem posições que despertam a admiração sem proporcionar poder em intensidade relevante. A arte, o entretenimento, a mídia, são férteis na criação dessas posições. Evidentemente, não ignoro que a fama proporcione alguma medida de poder, principalmente quando a opinião desses indivíduos se torna influente na sociedade, mas, comparativamente com posições mais concretas de poder, tal influência se mostra menos efetiva e capaz de gerar vantagens práticas.

No homem, como no restante dos animais, dois instintos fundamentais agem permanentemente: autopreservação e reprodução. Ambos garantem a perpetuação da espécie e da vida, ultrapassando os interesses do indivíduo, que, aliás, pouco importa para a natureza. Não foi para saciar seus anseios que ela lhe infundiu esses dois impulsos-guias, mas com fins que transcendem sua desprezível existência. Porém, é no indivíduo que esses instintos se realizam efetivamente. E, na sociedade, é que se manifestam como comportamento. Não por coincidência as forças que defini, no início, como norteadoras do comportamento humano, também formam um par. A associação entre esses elementos é evidente. A vontade de poder, caracterizada, principalmente, por proporcionar acesso aos meios de vida, será a manifestação comportalmental do instinto de autopreservação; enquanto a necessidade de admiração, que promove a distinção do indivíduo no grupo, estará ligada ao instinto de reprodução.

Entretanto, apenas essa associação não esclarece o dilema, não aponta a prioridade de uma força sobre a outra. Para isso, teremos de abandonar a especulação no plano dos conceitos e voltar nossa atenção para os fatos. Ora, não é verdade que para realizar seus impulsos sexuais e, mais indiretamente, para despertar a admiração de seus semelhantes, muitas vezes, o homem põe em risco a própria vida? Omnia vincit amor!

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