segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A identidade e a máscara, um ensaio sobre A Gaivota de Anton Tchekhov


A tensão entre o individual e o social é um tema recorrente nas obras de Tchekhov, tanto em suas peças como nos contos. Em instâncias diversas da vida em sociedade, o autor reconhece o conflito entre anseios pessoais e exigências sociais, que se manifesta através da criação de máscaras, de personagens de que nos servimos nas relações com outros indivíduos. Em contos como “O gordo e o magro” e “A dama do cachorrinho”, por exemplo, Tchekhov nos elucida, embora sob diferentes aspectos, como a posição que assumimos diante da sociedade pode interferir nas relações pessoais. No primeiro, acompanhamos de que maneira uma descontraída conversa entre amigos de infância pode adquirir as formalidades de uma audiência quando são reconhecidas as posições sociais desempenhadas por aqueles homens – isto é, quando as personagens que representamos diante da sociedade assumem o primeiro plano nas relações. A cumplicidade da infância compartilhada se converte em distância entre classes; a cordialidade, em bajulação. É possível perceber a influência dessa mesma tensão em “A dama do cachorrinho”. No entanto, é entre dois amantes que se estabelece uma distância em função de suas personagens sociais. O casamento arranjado de Anna, que determina sua posição social, assim como o já desgastado casamento de seu amante, que, por sua vez, lhe confere sua máscara de homem respeitável, impossibilitam e, ao mesmo tempo, alimentam seu romance secreto. A superficialidade da relação que mantêm, que lembra mais uma fuga de seus papéis sociais do que uma convivência repleta de afinidades, como seria de esperar de um romance, nos faz pensar se não é pelos personagens que representam um para outro que estão efetivamente apaixonados. Seja como for, é o conflito entre os anseios pessoais e as exigências sociais o que conduz o conto. O impasse em que se encerra parece refletir a impossibilidade de solução para esse dilema inerente à situação humana. Aliás, em “A dama do cachorrinho”, Tchekhov desvenda, de modo excepcional, o modo como os personagens assumidos pelos indivíduos não se restringem somente à manutenção da posição social e atingem até mesmo as relações pessoais – característica que aproxima o conto de sua peça “A Gaivota” –, pois parece ser a busca pela representação de certos papéis, de fantasias que idealizamos, para escapar ao tédio ou para ornamentar nossa imagem, o fio condutor dessas histórias. Gúrov, o amante da dama do cachorrinho, Anna, é traído pelo próprio personagem que buscava representar em sua aventura amorosa. De início, vemo-no bancar o indiferente diante da crise de consciência de Anna, com quem de início pretendia viver uma relação casual, porém, uma vez experimentada essa embriaguês da vaidade e de fuga da rotina, Gúrov passa ao temeridade de um homem que viaja em busca de sua amada. As personagens que buscamos representar frequentemente voltam-se contra nós, parece sugerir o autor.
Na peça “A Gaivota”, de maneira semelhante, são as personagens que os indivíduos anseiam representar, ou preservar, os seus próprios carrascos: Trepliov e Ninca buscam a concretização de suas posições como escritor e atriz; Trigórin e Arkádina, por outro lado, afligem-se com a possibilidade de caírem na obscuridade, isto é, perderem essas mesmas posições, mesmo que o escritor não seja tão explícito nessa preocupação quanto a mãe de Trepliov, que, a todo momento, busca reforçar e confirmar, mediante as opiniões das pessoas ao seu redor, sua posição como atriz famosa e sua aparência jovem, superficialidades que talvez sirvam para compensar sua carência de identidade. Trigórin, de maneira diversa, expressa em várias ocasiões o desejo de escapar ao seu papel de escritor, refugiando-se em ocupações comuns, como caminhar ou pescar, mas é possível que se tenha deixado revelar em sua conversa com Nina, quando afirma que é compelido a escrever constantemente, como se fosse um vício, um prego cravado em seu cérebro – e, em seguida, pragueja contra vaidade.
Enquanto Arkádina e Trigórin poderiam representar o temor diante de um abismo que se aproxima, a dissolução de suas personagens sociais e, com isso, de si mesmos, é deste mesmo vazio que Nina e Trepliov buscam emergir para conquistar suas posições. Talvez por isso seja o nada, a ausência de formas distintas, de identidades, o tema da primeira peça que realizam. De certo modo, é verossímil afirmar que é a busca por esse “lado de fora”, por emergir do vazio de suas existências particulares para o reconhecimento social, o que põe em movimento as personagens em “A Gaivota” – como um impulso autônomo e inevitável, assim como o que conduz um pássaro em direção a um lago, superfície espelhada, que reflete, assim como o olhar do outro, e que também aplaca a sede.
Em certo sentido, pode parecer reveladora a compulsão de Trigórin por fixar a fluidez constante da existência em arte, em objeto transcendente, com suas coleções de frases, metáforas e impressões, sobretudo quando nos lembramos do pedido que fez a Sórin para que empalhasse a gaivota abatida por Trepliov, pedido do qual, posteriormente, não se lembra – seria esse esquecimento uma autonegação, uma cegueira do seu próprio conflito?
No desfecho, Tchekhov nos coloca diante de duas possibilidades de conclusão para os anseios daqueles dois jovens, Nina e Trepliov, ambos aparentemente desventurados, mas que, apesar disso, expressam trajetórias perfeitamente opostas: uma na direção do ser, a outra, do não-ser. Trepliov inicia sua carreira como escritor, adquirindo até mesmo certo renome, mas suas obras carecem de substância, parecem exprimir o vazio de uma identidade apenas aparente, de uma máscara, de uma imagem carente de essência. Seu suicídio, ao final da peça, concretiza esse movimento em direção ao não-ser, ao vazio, devido ao fracasso de Trepliov em constituir uma identidade verdadeira. Já Nina, embora à primeira vista sofra um desfecho semelhantemente desafortunado, com uma carreira sem notoriedade, sem o glamour a que ela aspirava, prossegue. Em sua última conversa com Trepliov, suas palavras de adeus remetem às de alguém que parte em uma jornada; contudo, não em busca de uma meta, de um lago, como uma gaivota, mas sem ponto de chegada, apenas de partida. Nina parece movida por uma força interna e não em função de algo externo, de reflexos, de opiniões, de máscaras. Seu movimento caracteriza-se pela força e autodeterminação próprias do ser, da identidade que se realiza na ação, não na aparência. Ela rejeita o desfecho pressagiado por Trepliov e Trigórin, renega seu papel como gaivota, sua desdita, e afirma sua identidade como atriz. Sua despedida tem caráter de prelúdio. Recordemos, por fim, as palavras da jovem atriz:

“Eu sou uma gaivota... Não, não é isso. Eu sou uma atriz. É isto!”
“Agora não sou mais assim [o tema para um pequeno conto, uma gaivota]... sou uma atriz de verdade, represento com satisfação, com entusiasmo, uma embriaguez me domina. (...) o tempo todo caminho e sinto que meu espírito se torna mais forte a cada dia (...) o que importa não é a glória, não é o esplendor, não é aquilo com que eu tanto sonhava, mas sim a capacidade de suportar. (...) Eu acredito e, assim, nem sofro tanto e, quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida.”

sábado, 26 de maio de 2012

A mariposa e a lâmpada

Alça alvoroçado voo
E ávida avança veloz
Malfadada mariposa

A luz que te provoca
Em liso vidro impõe
invisíveis liames

Lépida acerca-se
Da lâmpada, fascinada
Ergue voo novamente
Chamuscada

Investe e teima
Cessa e volve
Descreve arbitrariamente
Descompassada dança

Ora é a mariposa que se queima
Ora quem se queima é a lâmpada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os mecanismos fundamentais da vida e o dualismo mítico

Desde que eu estava na escola, assistindo às minhas primeiras aulas de ciências, me intrigou a ideia de que a vida havia se originado a partir de um único ser, ao acaso, em um mundo primitivo e hostil. Afinal, se a existência da vida não fosse espontânea e natural, teríamos de admitir que estamos em conflito com o mundo, em vez de pensar que fazemos parte deste. Não era fácil para mim aceitar essa opinião, porque, além de nos ditar uma perspectiva pessimista diante da existência, me parecia inverossímil que toda a abundante e exultante vida deste planeta tivesse como ponto de partida um único instante, uma centelha em uma rara conjunção de circunstâncias.

Não tenho a pretensão de dizer, com estas palavras, qual é a verdadeira explicação científica para esse evento, mas apenas relatar como me foi explicado e como muitas vezes vi ser representada a versão mais aceita para o surgimento da vida.

Essas eram as minhas especulações na época, e a solução que me satisfez foi esta: na verdade, possivelmente, o caldo primitivo fervilhasse de vida, de complexos de moléculas que se organizassem em um tipo de metabolismo. Dessa maneira, os organismos vivos não seriam fruto de uma centelha, mas, pelo contrário, seriam resultado de um meio ambiente propício, propenso ao surgimento da vida. Conforme essa versão, não estaríamos em conflito com o mundo ao nosso redor, e a vida não seria considerada um fenômeno adverso, em oposição à probabilidade. Em síntese, não haveria uma batalha pela vida, mas uma celebração da natureza, cujos princípios seriam a razão direta da existência dos organismos vivos, e não uma improbabilidade, um golpe de sorte.

No entanto, contra minha versão pesava o seguinte fato: a semelhança fundamental compartilhada entre todos os seres vivos, das células do homem à mais simples forma de vida. Afinal, existe um incontestável parentesco genético entre as espécies, o que nos leva a admitir que provimos todos de um mesmo organismo, indivíduo. Esta ressalva me conferiu um dilema, que permaneceu sem solução durante muito tempo. Não que fosse objeto de preocupação, absolutamente. Trava-se somente de uma questão que despertava a minha curiosidade e à qual eu apenas raramente me voltava, por preguiça ou tédio.

Recentemente, outra ideia que me vem perturbando o espírito ofereceu sua explicação: propôs-me que prestasse atenção ao fato que não é a manutenção da própria vida dos organismos a sua única função vital. Isto é, não é apenas a preservação do indivíduo – que associo aqui à concepção de metabolismo – que constitui o mecanismo fundamental da vida. Existe outra função vital que é igualmente essencial para a definição da vida como a reconhecemos e que pode ser considerada, conforme minha visão de caldo fervilhante, até mesmo uma primeira evolução dos organismos: a reprodução. Não bastaria a preservação do organismo recém concebido, pois se o mesmo não fosse capaz de reproduzir-se – o que configura uma função bastante complexa e que podemos tomar em separado em relação à simples manutenção da vida do organismo –, a perpetuação de sua existência seria impossível. Nenhum organismo individual é capaz de manter-se vivo perpetuamente, portanto, a capacidade de produzir descendência é uma qualidade fundamental para perpetuação da vida. Sendo assim, poderemos considerar verossímil que uma sopa abundante de organismos individuais tenha criado as condições para o surgimento desse novo ser capaz de reprodução. Se aceitamos essa possibilidade, passamos a nos considerar não fruto do acaso, mas parte do desenvolvimento natural deste planeta, onde apareceram espontaneamente as condições favoráveis para o surgimento do ser do qual, na verdade, todos descendemos: em último instância, não apenas o organismo que se mantém vivo, mas o que se que reproduz.

Sem dúvida, uma explicação mais longa do que estou acostumado a dar sobre o que quer que seja – e nem sequer expus o tema de que realmente pretendia tratar. Porém, nem tudo pode ser dito de modo convincente em uma dúzia de frases. E se a leitura é cansativa (defenderiam certos amigos meus) o que se dirá da concepção do texto? Sejamos pacientes, o próximo parágrafo nos levará diretamente à questão.

De acordo com o que até então discorremos, para que nossa existência não seja vista como fruto do acaso, ou seja, um fato estranho à natureza e adverso à probabilidade, deveremos nos considerar descendentes não do organismo que subsistiu por um instante, mas daquele que reproduziu e, com isso, admitir que estas duas funções vitais, a sobrevivência e a reprodução, constituem o fundamento de nossas existências. Não é uma ideia extravagante. Aqueles que, ao final de uma argumentação, esperam sempre um ponto de vista excêntrico não buscam mais a verdade do que distrair suas inteligências. Se ao nos depararmos com um problema complexo se nos apresenta uma solução simples, podemos nos alegrar por pelo menos ter tornado a questão mais compreensível. Dito isso, abordemos finalmente o tema: não parece uma reveladora coincidência o fato de que o homem, em diversas culturas e formas de pensamento, tenham expressado a percepção de que o mundo é resultado de alguma forma de dualismo? Nas culturas arcaicas, masculino e feminino, luz e escuridão, caos e ordem; no cristianismo, bem e mal, sagrado e profano, material e espiritual; nas sociedades, moral e imoral, legal e ilegal, racional e irracional; na psicologia, ID e superego (proponho aqui que o terceiro elemento, o ego, configure uma espécie de síntese desses dois princípios), pulsão de vida e pulsão de morte, anima e animus, consciente e inconsciente. Eu poderia citar ainda princípios orientais, como Yin-yang, mas meu conhecimento dessas doutrinas é superficial. Poderíamos também nos lembrar das filosofias dualistas dos pré-socráticos, da questão da unidade e da multiplicidade ou até mesmo da dicotomia matéria e forma de Platão. Os exemplos de sistemas de pensamentos apoidos na concepção de dois princípios são abundantes na história das civilizações, e penso não ter de apresentar outros argumentos para, ao menos, sugerir uma associação entre estas duas coisas: a tendência do nosso intelecto para o dualismo e a existência de dois princípios fundamentais da vida.

Esta hipótese, de que há uma tendência para o dualismo na intelecção do homem e de que esta provém da influência que os dois princípios fundamentais exercem na nossa natureza, me veio à cabeça, como relatei no início, a partir daquela outra questão, de uma curiosidade de colégio, e atualmente me desperta a curiosidade tanto quanto aquela o fez na época. É possivel que a alguns a mera observação de uma coincidência não seja o bastante para estabeler uma relação direta entre ambos os fatos. Talvez lhes satisfizesse uma prova material, mas não posso sequer imaginar qual seria, de que modo isso poderia ser sugerido pelo conhecimento do funcionamento de um neurônio. Penso que, se houvesse tal explicação, esta seria de exposição muito mais complicada do que convém às explicações, conforme já ressaltei anteriormente. Nos contentemos, então, com a coincidência, se for o caso.