quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os mecanismos fundamentais da vida e o dualismo mítico

Desde que eu estava na escola, assistindo às minhas primeiras aulas de ciências, me intrigou a ideia de que a vida havia se originado a partir de um único ser, ao acaso, em um mundo primitivo e hostil. Afinal, se a existência da vida não fosse espontânea e natural, teríamos de admitir que estamos em conflito com o mundo, em vez de pensar que fazemos parte deste. Não era fácil para mim aceitar essa opinião, porque, além de nos ditar uma perspectiva pessimista diante da existência, me parecia inverossímil que toda a abundante e exultante vida deste planeta tivesse como ponto de partida um único instante, uma centelha em uma rara conjunção de circunstâncias.

Não tenho a pretensão de dizer, com estas palavras, qual é a verdadeira explicação científica para esse evento, mas apenas relatar como me foi explicado e como muitas vezes vi ser representada a versão mais aceita para o surgimento da vida.

Essas eram as minhas especulações na época, e a solução que me satisfez foi esta: na verdade, possivelmente, o caldo primitivo fervilhasse de vida, de complexos de moléculas que se organizassem em um tipo de metabolismo. Dessa maneira, os organismos vivos não seriam fruto de uma centelha, mas, pelo contrário, seriam resultado de um meio ambiente propício, propenso ao surgimento da vida. Conforme essa versão, não estaríamos em conflito com o mundo ao nosso redor, e a vida não seria considerada um fenômeno adverso, em oposição à probabilidade. Em síntese, não haveria uma batalha pela vida, mas uma celebração da natureza, cujos princípios seriam a razão direta da existência dos organismos vivos, e não uma improbabilidade, um golpe de sorte.

No entanto, contra minha versão pesava o seguinte fato: a semelhança fundamental compartilhada entre todos os seres vivos, das células do homem à mais simples forma de vida. Afinal, existe um incontestável parentesco genético entre as espécies, o que nos leva a admitir que provimos todos de um mesmo organismo, indivíduo. Esta ressalva me conferiu um dilema, que permaneceu sem solução durante muito tempo. Não que fosse objeto de preocupação, absolutamente. Trava-se somente de uma questão que despertava a minha curiosidade e à qual eu apenas raramente me voltava, por preguiça ou tédio.

Recentemente, outra ideia que me vem perturbando o espírito ofereceu sua explicação: propôs-me que prestasse atenção ao fato que não é a manutenção da própria vida dos organismos a sua única função vital. Isto é, não é apenas a preservação do indivíduo – que associo aqui à concepção de metabolismo – que constitui o mecanismo fundamental da vida. Existe outra função vital que é igualmente essencial para a definição da vida como a reconhecemos e que pode ser considerada, conforme minha visão de caldo fervilhante, até mesmo uma primeira evolução dos organismos: a reprodução. Não bastaria a preservação do organismo recém concebido, pois se o mesmo não fosse capaz de reproduzir-se – o que configura uma função bastante complexa e que podemos tomar em separado em relação à simples manutenção da vida do organismo –, a perpetuação de sua existência seria impossível. Nenhum organismo individual é capaz de manter-se vivo perpetuamente, portanto, a capacidade de produzir descendência é uma qualidade fundamental para perpetuação da vida. Sendo assim, poderemos considerar verossímil que uma sopa abundante de organismos individuais tenha criado as condições para o surgimento desse novo ser capaz de reprodução. Se aceitamos essa possibilidade, passamos a nos considerar não fruto do acaso, mas parte do desenvolvimento natural deste planeta, onde apareceram espontaneamente as condições favoráveis para o surgimento do ser do qual, na verdade, todos descendemos: em último instância, não apenas o organismo que se mantém vivo, mas o que se que reproduz.

Sem dúvida, uma explicação mais longa do que estou acostumado a dar sobre o que quer que seja – e nem sequer expus o tema de que realmente pretendia tratar. Porém, nem tudo pode ser dito de modo convincente em uma dúzia de frases. E se a leitura é cansativa (defenderiam certos amigos meus) o que se dirá da concepção do texto? Sejamos pacientes, o próximo parágrafo nos levará diretamente à questão.

De acordo com o que até então discorremos, para que nossa existência não seja vista como fruto do acaso, ou seja, um fato estranho à natureza e adverso à probabilidade, deveremos nos considerar descendentes não do organismo que subsistiu por um instante, mas daquele que reproduziu e, com isso, admitir que estas duas funções vitais, a sobrevivência e a reprodução, constituem o fundamento de nossas existências. Não é uma ideia extravagante. Aqueles que, ao final de uma argumentação, esperam sempre um ponto de vista excêntrico não buscam mais a verdade do que distrair suas inteligências. Se ao nos depararmos com um problema complexo se nos apresenta uma solução simples, podemos nos alegrar por pelo menos ter tornado a questão mais compreensível. Dito isso, abordemos finalmente o tema: não parece uma reveladora coincidência o fato de que o homem, em diversas culturas e formas de pensamento, tenham expressado a percepção de que o mundo é resultado de alguma forma de dualismo? Nas culturas arcaicas, masculino e feminino, luz e escuridão, caos e ordem; no cristianismo, bem e mal, sagrado e profano, material e espiritual; nas sociedades, moral e imoral, legal e ilegal, racional e irracional; na psicologia, ID e superego (proponho aqui que o terceiro elemento, o ego, configure uma espécie de síntese desses dois princípios), pulsão de vida e pulsão de morte, anima e animus, consciente e inconsciente. Eu poderia citar ainda princípios orientais, como Yin-yang, mas meu conhecimento dessas doutrinas é superficial. Poderíamos também nos lembrar das filosofias dualistas dos pré-socráticos, da questão da unidade e da multiplicidade ou até mesmo da dicotomia matéria e forma de Platão. Os exemplos de sistemas de pensamentos apoidos na concepção de dois princípios são abundantes na história das civilizações, e penso não ter de apresentar outros argumentos para, ao menos, sugerir uma associação entre estas duas coisas: a tendência do nosso intelecto para o dualismo e a existência de dois princípios fundamentais da vida.

Esta hipótese, de que há uma tendência para o dualismo na intelecção do homem e de que esta provém da influência que os dois princípios fundamentais exercem na nossa natureza, me veio à cabeça, como relatei no início, a partir daquela outra questão, de uma curiosidade de colégio, e atualmente me desperta a curiosidade tanto quanto aquela o fez na época. É possivel que a alguns a mera observação de uma coincidência não seja o bastante para estabeler uma relação direta entre ambos os fatos. Talvez lhes satisfizesse uma prova material, mas não posso sequer imaginar qual seria, de que modo isso poderia ser sugerido pelo conhecimento do funcionamento de um neurônio. Penso que, se houvesse tal explicação, esta seria de exposição muito mais complicada do que convém às explicações, conforme já ressaltei anteriormente. Nos contentemos, então, com a coincidência, se for o caso.

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