Esta não será uma tese nova. Talvez uma maneira nova de expor uma tese antiga. Ou, ainda, é possível que nada, nas linhas seguintes, seja novo, o que, porém, não diminui seu valor. A ideia me ocorreu enquanto lia sobre mitologia grega, mas se refinou numa ida ao supermercado – uma dessas caminhadas produtivas.
Duas linhas de pensamento orientam, fundamentalmente, os rumos da nossa civilização: a herança grego-romana e a religião judaico-cristã. Resumidamente, a primeira nos propiciou um espírito empreendedor e prático diante do mundo; a segunda, uma moralidade caracterizada pela humildade e pela compaixão. A contradição resultante da síntese dessas duas tendências já é conhecida, meu objetivo não é apontar os indícios de sua manifestação na nossa sociedade, tampouco explicar seus mecanismos. Pretendo apenas tentar esclarecer, embora rudimentarmente, sua origem, à luz de certos aspectos dos mitos de cada uma dessas culturas.
Como ocorre a organização do mundo no mito grego? A vitória de Zeus sobre os titãs representa a submissão das forças caóticas da natureza a uma ordem artificial instituída pela ação de um indivíduo. A teogonia grega apresenta a natureza original como caos, ambiente hostil à prosperidade do homem, em que forças frequentemente contraditórias exercem seu poder desmedidamente. Não nos custa perceber essa representação como metáfora para o estado de desamparo do homem anterior ao desenvolvimento da civilização. Diante das forças da natureza, das intempéries, da abundância ou da escassez de alimentos, que precede a agricultura, das enfermidades, enfim, todos esses elementos imprevisíveis, o homem pouco pode fazer. Para que ele possa se beneficiar da natureza e atingir o bem-estar, é preciso ordem. Uma ordem convencionada, os gregos estavam cientes disso, estabelecida e mantida pela força, pela ação organizadora do indivíduo. O Olimpo, certamente, reflete a organização social que, na visão dos helenos, propiciaria a ordem necessária para a manutenção do bem-estar. Cada deus possui uma função, necessária e complementar às demais. Zeus, senhor do Olimpo, zela para que cada parte exerça seu poder de acordo com seus limites, evitando o desequilíbrio entre essas forças individuais. No mito grego, em outras palavras, o benefício do homem é alcançado pela submissão das forças essencialmente caóticas da natureza à ordem convencionada, artificial (em oposição ao natural), humana.
E o que nos diz a mitologia judaico-cristã? Opõe-se ao mito grego desde a criação do ser humano. Afinal, o estado original da natureza, para o homem, é o Éden, em que, ao contrário de encontrar-se desamparado diante de forças imprevisíveis, o homem vive na abundância e na despreocupação de um jardim, criado para satisfazer-lhe todas as necessidades.
Neste ponto, no entanto, é preciso esclarecer de que modo o homem adquire a capacidade de agir sobre a natureza: através do conhecimento. É por meio do conhecimento que a experiência proporciona que o homem se torna capaz de prever em que períodos do ano a plantação deve ser semeada, quando o fruto deve ser colhido, quanta água deve haver disponível e, até mesmo, o modo de levar a água até os campos. O conhecimento permite que o homem transforme e submeta a natureza.
No mito judaico-cristão, o ato de conhecer, representado pelo fruto do conhecimento, é proibido ao homem, constitui uma violação das leis de Deus. O pecado original é o orgulho, desde a queda de Lúcifer. A arrogância do homem, que Deus pune com a expulsão do Éden, é sua pretensão em conhecer, em adquirir poder sobre a natureza, podemos interpretar.
Desse modo, o homem perde o equilíbrio que desfrutava com a natureza e é lançado no mundo social, essencialmente caótico, em que Homo homini lupus. Mundo este sobre o qual Deus virá a agir posteriormente, instituindo suas leis, seus mandamentos.
Diante disso, alguém poderá perguntar: e qual é a relação disso com o sentimento de culpa, afinal? Ora, produtos que somos dessas duas linhas de pensamento, vivemos o conflito entre suas duas visões opostas. Por um lado, somos estimulados a agir sobre o mundo, em busca do nosso bem-estar, através do conhecimento. Obtendo, assim, a satisfação de nossas necessidades mundanas, ligadas ao corpo e à vida prática. Por outro, somos aconselhados a resistir aos apelos da necessidade, dos desejos, compelidos à resignação diante dos fatos da divina providência. O sentimento de culpa, característico da nossa civilização, advém desse dilema, desejamos aquilo que somos repreendidos por satisfazer. O tempora! O mores!
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
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Isso parece aula da Carlinda (o que é um grande elogio).
ResponderExcluirNunca assisti a aulas com ela, mas ouço falar bem. Vou me sentir elogiado, então, mesmo sem saber do que se trata. eheh
ResponderExcluirMuito bom o que vc nos apresentou. vc podia desenvolver mais essa idéia. que tal em outro texto? vc devia escrever mais por aqui para nos ajudar a pensar um pouco mais algumas questões. não seja egoísta em compartilhar com seus amigos rsrs
ResponderExcluirabraço!
hahaha
ResponderExcluirNão é uma ideia nova, como eu disse. Está em Nietzsche, de certa maneira. Eu até que gostaria de escrever mais por aqui, mas tenho um tipo de bloqueio. Dependo da visita da Musa. eheh
Abraço.
Gostei muito. Porém, não acho que o pecado original tenha sido o orgulho. O pecado original, não-listado na bibliografia bíblica, teria sido a Curiosidade.
ResponderExcluirCuriosidade, o ponto de partida para o conhecimento.
Particularmente, acredito que Eva pecou por tédio. O Tédio é a mola-mestra para fantasias... Fantasiar é o primeiro passo para a Curiosidade, então?
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