Desde que eu estava na escola, assistindo às minhas primeiras aulas de ciências, me intrigou a ideia de que a vida havia se originado a partir de um único ser, ao acaso, em um mundo primitivo e hostil. Afinal, se a existência da vida não fosse espontânea e natural, teríamos de admitir que estamos em conflito com o mundo, em vez de pensar que fazemos parte deste. Não era fácil para mim aceitar essa opinião, porque, além de nos ditar uma perspectiva pessimista diante da existência, me parecia inverossímil que toda a abundante e exultante vida deste planeta tivesse como ponto de partida um único instante, uma centelha em uma rara conjunção de circunstâncias.
Não tenho a pretensão de dizer, com estas palavras, qual é a verdadeira explicação científica para esse evento, mas apenas relatar como me foi explicado e como muitas vezes vi ser representada a versão mais aceita para o surgimento da vida.
Essas eram as minhas especulações na época, e a solução que me satisfez foi esta: na verdade, possivelmente, o caldo primitivo fervilhasse de vida, de complexos de moléculas que se organizassem em um tipo de metabolismo. Dessa maneira, os organismos vivos não seriam fruto de uma centelha, mas, pelo contrário, seriam resultado de um meio ambiente propício, propenso ao surgimento da vida. Conforme essa versão, não estaríamos em conflito com o mundo ao nosso redor, e a vida não seria considerada um fenômeno adverso, em oposição à probabilidade. Em síntese, não haveria uma batalha pela vida, mas uma celebração da natureza, cujos princípios seriam a razão direta da existência dos organismos vivos, e não uma improbabilidade, um golpe de sorte.
No entanto, contra minha versão pesava o seguinte fato: a semelhança fundamental compartilhada entre todos os seres vivos, das células do homem à mais simples forma de vida. Afinal, existe um incontestável parentesco genético entre as espécies, o que nos leva a admitir que provimos todos de um mesmo organismo, indivíduo. Esta ressalva me conferiu um dilema, que permaneceu sem solução durante muito tempo. Não que fosse objeto de preocupação, absolutamente. Trava-se somente de uma questão que despertava a minha curiosidade e à qual eu apenas raramente me voltava, por preguiça ou tédio.
Recentemente, outra ideia que me vem perturbando o espírito ofereceu sua explicação: propôs-me que prestasse atenção ao fato que não é a manutenção da própria vida dos organismos a sua única função vital. Isto é, não é apenas a preservação do indivíduo – que associo aqui à concepção de metabolismo – que constitui o mecanismo fundamental da vida. Existe outra função vital que é igualmente essencial para a definição da vida como a reconhecemos e que pode ser considerada, conforme minha visão de caldo fervilhante, até mesmo uma primeira evolução dos organismos: a reprodução. Não bastaria a preservação do organismo recém concebido, pois se o mesmo não fosse capaz de reproduzir-se – o que configura uma função bastante complexa e que podemos tomar em separado em relação à simples manutenção da vida do organismo –, a perpetuação de sua existência seria impossível. Nenhum organismo individual é capaz de manter-se vivo perpetuamente, portanto, a capacidade de produzir descendência é uma qualidade fundamental para perpetuação da vida. Sendo assim, poderemos considerar verossímil que uma sopa abundante de organismos individuais tenha criado as condições para o surgimento desse novo ser capaz de reprodução. Se aceitamos essa possibilidade, passamos a nos considerar não fruto do acaso, mas parte do desenvolvimento natural deste planeta, onde apareceram espontaneamente as condições favoráveis para o surgimento do ser do qual, na verdade, todos descendemos: em último instância, não apenas o organismo que se mantém vivo, mas o que se que reproduz.
Sem dúvida, uma explicação mais longa do que estou acostumado a dar sobre o que quer que seja – e nem sequer expus o tema de que realmente pretendia tratar. Porém, nem tudo pode ser dito de modo convincente em uma dúzia de frases. E se a leitura é cansativa (defenderiam certos amigos meus) o que se dirá da concepção do texto? Sejamos pacientes, o próximo parágrafo nos levará diretamente à questão.
De acordo com o que até então discorremos, para que nossa existência não seja vista como fruto do acaso, ou seja, um fato estranho à natureza e adverso à probabilidade, deveremos nos considerar descendentes não do organismo que subsistiu por um instante, mas daquele que reproduziu e, com isso, admitir que estas duas funções vitais, a sobrevivência e a reprodução, constituem o fundamento de nossas existências. Não é uma ideia extravagante. Aqueles que, ao final de uma argumentação, esperam sempre um ponto de vista excêntrico não buscam mais a verdade do que distrair suas inteligências. Se ao nos depararmos com um problema complexo se nos apresenta uma solução simples, podemos nos alegrar por pelo menos ter tornado a questão mais compreensível. Dito isso, abordemos finalmente o tema: não parece uma reveladora coincidência o fato de que o homem, em diversas culturas e formas de pensamento, tenham expressado a percepção de que o mundo é resultado de alguma forma de dualismo? Nas culturas arcaicas, masculino e feminino, luz e escuridão, caos e ordem; no cristianismo, bem e mal, sagrado e profano, material e espiritual; nas sociedades, moral e imoral, legal e ilegal, racional e irracional; na psicologia, ID e superego (proponho aqui que o terceiro elemento, o ego, configure uma espécie de síntese desses dois princípios), pulsão de vida e pulsão de morte, anima e animus, consciente e inconsciente. Eu poderia citar ainda princípios orientais, como Yin-yang, mas meu conhecimento dessas doutrinas é superficial. Poderíamos também nos lembrar das filosofias dualistas dos pré-socráticos, da questão da unidade e da multiplicidade ou até mesmo da dicotomia matéria e forma de Platão. Os exemplos de sistemas de pensamentos apoidos na concepção de dois princípios são abundantes na história das civilizações, e penso não ter de apresentar outros argumentos para, ao menos, sugerir uma associação entre estas duas coisas: a tendência do nosso intelecto para o dualismo e a existência de dois princípios fundamentais da vida.
Esta hipótese, de que há uma tendência para o dualismo na intelecção do homem e de que esta provém da influência que os dois princípios fundamentais exercem na nossa natureza, me veio à cabeça, como relatei no início, a partir daquela outra questão, de uma curiosidade de colégio, e atualmente me desperta a curiosidade tanto quanto aquela o fez na época. É possivel que a alguns a mera observação de uma coincidência não seja o bastante para estabeler uma relação direta entre ambos os fatos. Talvez lhes satisfizesse uma prova material, mas não posso sequer imaginar qual seria, de que modo isso poderia ser sugerido pelo conhecimento do funcionamento de um neurônio. Penso que, se houvesse tal explicação, esta seria de exposição muito mais complicada do que convém às explicações, conforme já ressaltei anteriormente. Nos contentemos, então, com a coincidência, se for o caso.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A origem da culpa na Civilização Ocidental
Esta não será uma tese nova. Talvez uma maneira nova de expor uma tese antiga. Ou, ainda, é possível que nada, nas linhas seguintes, seja novo, o que, porém, não diminui seu valor. A ideia me ocorreu enquanto lia sobre mitologia grega, mas se refinou numa ida ao supermercado – uma dessas caminhadas produtivas.
Duas linhas de pensamento orientam, fundamentalmente, os rumos da nossa civilização: a herança grego-romana e a religião judaico-cristã. Resumidamente, a primeira nos propiciou um espírito empreendedor e prático diante do mundo; a segunda, uma moralidade caracterizada pela humildade e pela compaixão. A contradição resultante da síntese dessas duas tendências já é conhecida, meu objetivo não é apontar os indícios de sua manifestação na nossa sociedade, tampouco explicar seus mecanismos. Pretendo apenas tentar esclarecer, embora rudimentarmente, sua origem, à luz de certos aspectos dos mitos de cada uma dessas culturas.
Como ocorre a organização do mundo no mito grego? A vitória de Zeus sobre os titãs representa a submissão das forças caóticas da natureza a uma ordem artificial instituída pela ação de um indivíduo. A teogonia grega apresenta a natureza original como caos, ambiente hostil à prosperidade do homem, em que forças frequentemente contraditórias exercem seu poder desmedidamente. Não nos custa perceber essa representação como metáfora para o estado de desamparo do homem anterior ao desenvolvimento da civilização. Diante das forças da natureza, das intempéries, da abundância ou da escassez de alimentos, que precede a agricultura, das enfermidades, enfim, todos esses elementos imprevisíveis, o homem pouco pode fazer. Para que ele possa se beneficiar da natureza e atingir o bem-estar, é preciso ordem. Uma ordem convencionada, os gregos estavam cientes disso, estabelecida e mantida pela força, pela ação organizadora do indivíduo. O Olimpo, certamente, reflete a organização social que, na visão dos helenos, propiciaria a ordem necessária para a manutenção do bem-estar. Cada deus possui uma função, necessária e complementar às demais. Zeus, senhor do Olimpo, zela para que cada parte exerça seu poder de acordo com seus limites, evitando o desequilíbrio entre essas forças individuais. No mito grego, em outras palavras, o benefício do homem é alcançado pela submissão das forças essencialmente caóticas da natureza à ordem convencionada, artificial (em oposição ao natural), humana.
E o que nos diz a mitologia judaico-cristã? Opõe-se ao mito grego desde a criação do ser humano. Afinal, o estado original da natureza, para o homem, é o Éden, em que, ao contrário de encontrar-se desamparado diante de forças imprevisíveis, o homem vive na abundância e na despreocupação de um jardim, criado para satisfazer-lhe todas as necessidades.
Neste ponto, no entanto, é preciso esclarecer de que modo o homem adquire a capacidade de agir sobre a natureza: através do conhecimento. É por meio do conhecimento que a experiência proporciona que o homem se torna capaz de prever em que períodos do ano a plantação deve ser semeada, quando o fruto deve ser colhido, quanta água deve haver disponível e, até mesmo, o modo de levar a água até os campos. O conhecimento permite que o homem transforme e submeta a natureza.
No mito judaico-cristão, o ato de conhecer, representado pelo fruto do conhecimento, é proibido ao homem, constitui uma violação das leis de Deus. O pecado original é o orgulho, desde a queda de Lúcifer. A arrogância do homem, que Deus pune com a expulsão do Éden, é sua pretensão em conhecer, em adquirir poder sobre a natureza, podemos interpretar.
Desse modo, o homem perde o equilíbrio que desfrutava com a natureza e é lançado no mundo social, essencialmente caótico, em que Homo homini lupus. Mundo este sobre o qual Deus virá a agir posteriormente, instituindo suas leis, seus mandamentos.
Diante disso, alguém poderá perguntar: e qual é a relação disso com o sentimento de culpa, afinal? Ora, produtos que somos dessas duas linhas de pensamento, vivemos o conflito entre suas duas visões opostas. Por um lado, somos estimulados a agir sobre o mundo, em busca do nosso bem-estar, através do conhecimento. Obtendo, assim, a satisfação de nossas necessidades mundanas, ligadas ao corpo e à vida prática. Por outro, somos aconselhados a resistir aos apelos da necessidade, dos desejos, compelidos à resignação diante dos fatos da divina providência. O sentimento de culpa, característico da nossa civilização, advém desse dilema, desejamos aquilo que somos repreendidos por satisfazer. O tempora! O mores!
Duas linhas de pensamento orientam, fundamentalmente, os rumos da nossa civilização: a herança grego-romana e a religião judaico-cristã. Resumidamente, a primeira nos propiciou um espírito empreendedor e prático diante do mundo; a segunda, uma moralidade caracterizada pela humildade e pela compaixão. A contradição resultante da síntese dessas duas tendências já é conhecida, meu objetivo não é apontar os indícios de sua manifestação na nossa sociedade, tampouco explicar seus mecanismos. Pretendo apenas tentar esclarecer, embora rudimentarmente, sua origem, à luz de certos aspectos dos mitos de cada uma dessas culturas.
Como ocorre a organização do mundo no mito grego? A vitória de Zeus sobre os titãs representa a submissão das forças caóticas da natureza a uma ordem artificial instituída pela ação de um indivíduo. A teogonia grega apresenta a natureza original como caos, ambiente hostil à prosperidade do homem, em que forças frequentemente contraditórias exercem seu poder desmedidamente. Não nos custa perceber essa representação como metáfora para o estado de desamparo do homem anterior ao desenvolvimento da civilização. Diante das forças da natureza, das intempéries, da abundância ou da escassez de alimentos, que precede a agricultura, das enfermidades, enfim, todos esses elementos imprevisíveis, o homem pouco pode fazer. Para que ele possa se beneficiar da natureza e atingir o bem-estar, é preciso ordem. Uma ordem convencionada, os gregos estavam cientes disso, estabelecida e mantida pela força, pela ação organizadora do indivíduo. O Olimpo, certamente, reflete a organização social que, na visão dos helenos, propiciaria a ordem necessária para a manutenção do bem-estar. Cada deus possui uma função, necessária e complementar às demais. Zeus, senhor do Olimpo, zela para que cada parte exerça seu poder de acordo com seus limites, evitando o desequilíbrio entre essas forças individuais. No mito grego, em outras palavras, o benefício do homem é alcançado pela submissão das forças essencialmente caóticas da natureza à ordem convencionada, artificial (em oposição ao natural), humana.
E o que nos diz a mitologia judaico-cristã? Opõe-se ao mito grego desde a criação do ser humano. Afinal, o estado original da natureza, para o homem, é o Éden, em que, ao contrário de encontrar-se desamparado diante de forças imprevisíveis, o homem vive na abundância e na despreocupação de um jardim, criado para satisfazer-lhe todas as necessidades.
Neste ponto, no entanto, é preciso esclarecer de que modo o homem adquire a capacidade de agir sobre a natureza: através do conhecimento. É por meio do conhecimento que a experiência proporciona que o homem se torna capaz de prever em que períodos do ano a plantação deve ser semeada, quando o fruto deve ser colhido, quanta água deve haver disponível e, até mesmo, o modo de levar a água até os campos. O conhecimento permite que o homem transforme e submeta a natureza.
No mito judaico-cristão, o ato de conhecer, representado pelo fruto do conhecimento, é proibido ao homem, constitui uma violação das leis de Deus. O pecado original é o orgulho, desde a queda de Lúcifer. A arrogância do homem, que Deus pune com a expulsão do Éden, é sua pretensão em conhecer, em adquirir poder sobre a natureza, podemos interpretar.
Desse modo, o homem perde o equilíbrio que desfrutava com a natureza e é lançado no mundo social, essencialmente caótico, em que Homo homini lupus. Mundo este sobre o qual Deus virá a agir posteriormente, instituindo suas leis, seus mandamentos.
Diante disso, alguém poderá perguntar: e qual é a relação disso com o sentimento de culpa, afinal? Ora, produtos que somos dessas duas linhas de pensamento, vivemos o conflito entre suas duas visões opostas. Por um lado, somos estimulados a agir sobre o mundo, em busca do nosso bem-estar, através do conhecimento. Obtendo, assim, a satisfação de nossas necessidades mundanas, ligadas ao corpo e à vida prática. Por outro, somos aconselhados a resistir aos apelos da necessidade, dos desejos, compelidos à resignação diante dos fatos da divina providência. O sentimento de culpa, característico da nossa civilização, advém desse dilema, desejamos aquilo que somos repreendidos por satisfazer. O tempora! O mores!
Poder
Já há algum tempo dura uma querela entre mim e um velho amigo a respeito do que mais motiva o homem: a necessidade de admiração ou a vontade de poder. Ele, economista, homem de exatas, argumenta em favor da vontade de poder; eu, filósofo (não me sinto constrangido em reivindicar o título), mais inclinado a questões espirituais do que práticas, defendo a outra alternativa. Como o post anterior enseja essa discussão, sem hesitação, vamos a ela.
A respeito disso, um argumento presente na Ética a Nicômaco sempre despertou minha atenção. Não trata especificamente da mesma questão, mas é oportuno. Examinando uma a uma as virtudes, para determinar aquela cuja posse corresponde à felicidade, Aristóteles elabora a seguinte proposição em relação à honra: de todos os bens, a honra deve ser o mais almejado, pois é apenas em vista dela que os homens buscam os outros bens. Ora, com isso, acredito, o filósofo quis dizer que só buscamos o poder, a riqueza, a beleza, a inteligência, na medida em que desejamos ser admirados pela posse destes. Entretanto, Aristóteles descarta essa hipótese e segue em frente, pois, na Ética, seu objeto era a felicidade, e ele não pretendia, como eu, agora, discutir a fonte da motivação dos homens.
Sem dúvida, desempenhar algum tipo de poder sempre desperta admiração, respeito. Estar em posição de poder, normalmente, implica em uma situação mais segura e confortável nas relações entre as pessoas. Afinal, se estabelece, necessariamente, certo grau de dependência entre as partes, em benefício da parcela mais forte, de maneira que se tornam indissociáveis o poder e a honra (uso aqui o termo no sentido que lhe confere Aristóteles, isto é, característica daquilo que recebe honrarias, distinção).
Além disso, o poder carrega consigo vantagens práticas, que excedem a instância da vida social. Deter algum tipo de poder significa maior acesso aos meios de sobrevivência e, mais do que isso, ao luxo e ao conforto que o estilo de vida de uma cultura pode proporcionar. O poder é uma forma de garantir o próprio bem-estar, assim como o de seus descendentes.
Diante dessas duas qualidades intrínsecas ao poder – despertar a admiração dos homens e proporcionar bem-estar –, parece difícil negar sua proeminência em relação à necessidade de admiração para a motivação dos homens. No entanto, há um fato que não deve ser negligenciado: existem posições que despertam a admiração sem proporcionar poder em intensidade relevante. A arte, o entretenimento, a mídia, são férteis na criação dessas posições. Evidentemente, não ignoro que a fama proporcione alguma medida de poder, principalmente quando a opinião desses indivíduos se torna influente na sociedade, mas, comparativamente com posições mais concretas de poder, tal influência se mostra menos efetiva e capaz de gerar vantagens práticas.
No homem, como no restante dos animais, dois instintos fundamentais agem permanentemente: autopreservação e reprodução. Ambos garantem a perpetuação da espécie e da vida, ultrapassando os interesses do indivíduo, que, aliás, pouco importa para a natureza. Não foi para saciar seus anseios que ela lhe infundiu esses dois impulsos-guias, mas com fins que transcendem sua desprezível existência. Porém, é no indivíduo que esses instintos se realizam efetivamente. E, na sociedade, é que se manifestam como comportamento. Não por coincidência as forças que defini, no início, como norteadoras do comportamento humano, também formam um par. A associação entre esses elementos é evidente. A vontade de poder, caracterizada, principalmente, por proporcionar acesso aos meios de vida, será a manifestação comportalmental do instinto de autopreservação; enquanto a necessidade de admiração, que promove a distinção do indivíduo no grupo, estará ligada ao instinto de reprodução.
Entretanto, apenas essa associação não esclarece o dilema, não aponta a prioridade de uma força sobre a outra. Para isso, teremos de abandonar a especulação no plano dos conceitos e voltar nossa atenção para os fatos. Ora, não é verdade que para realizar seus impulsos sexuais e, mais indiretamente, para despertar a admiração de seus semelhantes, muitas vezes, o homem põe em risco a própria vida? Omnia vincit amor!
A respeito disso, um argumento presente na Ética a Nicômaco sempre despertou minha atenção. Não trata especificamente da mesma questão, mas é oportuno. Examinando uma a uma as virtudes, para determinar aquela cuja posse corresponde à felicidade, Aristóteles elabora a seguinte proposição em relação à honra: de todos os bens, a honra deve ser o mais almejado, pois é apenas em vista dela que os homens buscam os outros bens. Ora, com isso, acredito, o filósofo quis dizer que só buscamos o poder, a riqueza, a beleza, a inteligência, na medida em que desejamos ser admirados pela posse destes. Entretanto, Aristóteles descarta essa hipótese e segue em frente, pois, na Ética, seu objeto era a felicidade, e ele não pretendia, como eu, agora, discutir a fonte da motivação dos homens.
Sem dúvida, desempenhar algum tipo de poder sempre desperta admiração, respeito. Estar em posição de poder, normalmente, implica em uma situação mais segura e confortável nas relações entre as pessoas. Afinal, se estabelece, necessariamente, certo grau de dependência entre as partes, em benefício da parcela mais forte, de maneira que se tornam indissociáveis o poder e a honra (uso aqui o termo no sentido que lhe confere Aristóteles, isto é, característica daquilo que recebe honrarias, distinção).
Além disso, o poder carrega consigo vantagens práticas, que excedem a instância da vida social. Deter algum tipo de poder significa maior acesso aos meios de sobrevivência e, mais do que isso, ao luxo e ao conforto que o estilo de vida de uma cultura pode proporcionar. O poder é uma forma de garantir o próprio bem-estar, assim como o de seus descendentes.
Diante dessas duas qualidades intrínsecas ao poder – despertar a admiração dos homens e proporcionar bem-estar –, parece difícil negar sua proeminência em relação à necessidade de admiração para a motivação dos homens. No entanto, há um fato que não deve ser negligenciado: existem posições que despertam a admiração sem proporcionar poder em intensidade relevante. A arte, o entretenimento, a mídia, são férteis na criação dessas posições. Evidentemente, não ignoro que a fama proporcione alguma medida de poder, principalmente quando a opinião desses indivíduos se torna influente na sociedade, mas, comparativamente com posições mais concretas de poder, tal influência se mostra menos efetiva e capaz de gerar vantagens práticas.
No homem, como no restante dos animais, dois instintos fundamentais agem permanentemente: autopreservação e reprodução. Ambos garantem a perpetuação da espécie e da vida, ultrapassando os interesses do indivíduo, que, aliás, pouco importa para a natureza. Não foi para saciar seus anseios que ela lhe infundiu esses dois impulsos-guias, mas com fins que transcendem sua desprezível existência. Porém, é no indivíduo que esses instintos se realizam efetivamente. E, na sociedade, é que se manifestam como comportamento. Não por coincidência as forças que defini, no início, como norteadoras do comportamento humano, também formam um par. A associação entre esses elementos é evidente. A vontade de poder, caracterizada, principalmente, por proporcionar acesso aos meios de vida, será a manifestação comportalmental do instinto de autopreservação; enquanto a necessidade de admiração, que promove a distinção do indivíduo no grupo, estará ligada ao instinto de reprodução.
Entretanto, apenas essa associação não esclarece o dilema, não aponta a prioridade de uma força sobre a outra. Para isso, teremos de abandonar a especulação no plano dos conceitos e voltar nossa atenção para os fatos. Ora, não é verdade que para realizar seus impulsos sexuais e, mais indiretamente, para despertar a admiração de seus semelhantes, muitas vezes, o homem põe em risco a própria vida? Omnia vincit amor!
sábado, 23 de janeiro de 2010
Vaidade
Tal é o poder de influência da vaidade sobre os indivíduos (e não me excluo, absolutamente) que levei sete meses para finalmente escrever este post. Não que o assunto permanecesse obscuro para mim e não soubesse ao certo o que dizer, mas me fiz exigências tão altas quanto à qualidade do que deveria escrever por aqui que todas as tentativas me pareceram inferiores ao meu intento. Coisas da vaidade! Impulsiona ou imobiliza, como veremos adiante. O caso é que finalmente me rendi a uma necessidade que espero tornar-se hábito: escrever. E mais do que isso, escrever para ser lido. Admiro a coragem e o desprendimento daqueles que, sem constrangimento ou hesitação, exibem seus textos publicamente. Pensava que um texto precisaria amadurecer, refinar-se, satisfazer completamente as expectativas do autor, antes de ser levado a público. Ou mesmo antes de ser escrito. O arranjo do argumento deveria ser minuciosamente planejado antes de os dedos saltirarem no teclado, concedendo às ideias sua forma definitiva. Temo ter que abandonar esse procedimento, pelo risco de jamais vir a escrever coisa alguma. Alea jacta est!
Dito isso, creio que posso admitir, definitivamente, que me reconciliei com a vaidade. E aceitarei as censuras que poderão desencadear esse anúncio, pelo menos até que meus acusadores leiam o restante deste texto, pois, como homem da nossa cultura, me acostumei a considerá-la negativa e prejudicial. A vaidade envenena as relações, faz julgar-se superior quem não é, justifica ações danosas em defesa do orgulho ferido, distingue o igual e esconde o homem de si mesmo. O indivíduo excessivamente vaidoso é, frequentemente, desagradável. No entanto, é preciso perceber que a vaidade, que é mais impulso do que ação, só se torna negativa por associação, não sendo, portanto, em essência. Explico: seu valor positivo ou negativo depende de em que o homem a deposita. O caráter de um homem é aquilo pelo que deseja ser admirado. Se quer ser admirado por seus bens, sua vaidade, força motriz, será direcionada para o acúmulo de bens. Se por sua beleza, para sua aparência. Por outro lado, se um homem escolher fazer-se admirar pelas suas virtudes morais, a vaidade motivará sua boa conduta.
Todo homem sente necessidade de ser admirado por seus semelhantes, essa é a única constante nas personalidades. A vaidade é o que impulsiona a ação dos indivíduos na sociedade. A vaidade constituiu a civilização, criou a arte, construiu o conhecimento, ergueu cidades. Motivou estas considerações acerca de si mesma. Como força motriz da ação humana, é responsável por todas as nossas realizações. Quem poderá condená-la senão movido por seu próprio impulso invencível? É a causa da própria vilania. A vaidade produz santos e monstros.
Há algumas linhas atrás, sugeri que a vaidade se traduz em ação. Me precipitei. Argumenta contrariamente a isso o primeiro parágrafo deste texto, que trata, fundamentalmente, de seu aspecto paralisante. Como já foi dito, o julgamento moral sobre a vaidade não deveria recair sobre ela própria, mas sobre aquilo que é a ela, na personalidade, associado. É o que me ocorreu agora chamar – muito astuciosamente, sou obrigado a reconhecer – de componente horizontal da vaidade, sua manifestação em relação à sociedade. No que diz respeito ao indivíduo, porém, a considerarei em seu componente vertical, isto é, em sua capacidade potencial de levar o homem à ação ou à inatividade. A vaidade produz gênios e medíocres.
Assim como todo homem busca constantemente a admiração de seus semelhantes, consoante o mesmo mecanismo, teme a rejeição dos mesmos. O indivíduo pende entre essas duas forças, que são manifestações de uma única essência, aquilo que é motivação, tema e título deste texto. Se o indivíduo tende para o medo, a vaidade atuará como uma força paralisante tão poderosa quanto é impulsionadora para aqueles que se inclinam para a ousadia. Mais uma vez, está no homem, e não na vaidade, a responsabilidade sobre sua manifestação concreta. Fortuna favet fortibus!
Movido por estas especulações, me reconciliei com a vaidade. Se pudesse, lhe faria uma estátua. Aliás, diante de tão importante papel, me admira que os gregos não a tenham deíficado. Os egípcios o fizeram, sob o nome Hator, que, não sem razão, possuía a forma de uma vaca. A vaidade nutre o homem.
Dito isso, creio que posso admitir, definitivamente, que me reconciliei com a vaidade. E aceitarei as censuras que poderão desencadear esse anúncio, pelo menos até que meus acusadores leiam o restante deste texto, pois, como homem da nossa cultura, me acostumei a considerá-la negativa e prejudicial. A vaidade envenena as relações, faz julgar-se superior quem não é, justifica ações danosas em defesa do orgulho ferido, distingue o igual e esconde o homem de si mesmo. O indivíduo excessivamente vaidoso é, frequentemente, desagradável. No entanto, é preciso perceber que a vaidade, que é mais impulso do que ação, só se torna negativa por associação, não sendo, portanto, em essência. Explico: seu valor positivo ou negativo depende de em que o homem a deposita. O caráter de um homem é aquilo pelo que deseja ser admirado. Se quer ser admirado por seus bens, sua vaidade, força motriz, será direcionada para o acúmulo de bens. Se por sua beleza, para sua aparência. Por outro lado, se um homem escolher fazer-se admirar pelas suas virtudes morais, a vaidade motivará sua boa conduta.
Todo homem sente necessidade de ser admirado por seus semelhantes, essa é a única constante nas personalidades. A vaidade é o que impulsiona a ação dos indivíduos na sociedade. A vaidade constituiu a civilização, criou a arte, construiu o conhecimento, ergueu cidades. Motivou estas considerações acerca de si mesma. Como força motriz da ação humana, é responsável por todas as nossas realizações. Quem poderá condená-la senão movido por seu próprio impulso invencível? É a causa da própria vilania. A vaidade produz santos e monstros.
Há algumas linhas atrás, sugeri que a vaidade se traduz em ação. Me precipitei. Argumenta contrariamente a isso o primeiro parágrafo deste texto, que trata, fundamentalmente, de seu aspecto paralisante. Como já foi dito, o julgamento moral sobre a vaidade não deveria recair sobre ela própria, mas sobre aquilo que é a ela, na personalidade, associado. É o que me ocorreu agora chamar – muito astuciosamente, sou obrigado a reconhecer – de componente horizontal da vaidade, sua manifestação em relação à sociedade. No que diz respeito ao indivíduo, porém, a considerarei em seu componente vertical, isto é, em sua capacidade potencial de levar o homem à ação ou à inatividade. A vaidade produz gênios e medíocres.
Assim como todo homem busca constantemente a admiração de seus semelhantes, consoante o mesmo mecanismo, teme a rejeição dos mesmos. O indivíduo pende entre essas duas forças, que são manifestações de uma única essência, aquilo que é motivação, tema e título deste texto. Se o indivíduo tende para o medo, a vaidade atuará como uma força paralisante tão poderosa quanto é impulsionadora para aqueles que se inclinam para a ousadia. Mais uma vez, está no homem, e não na vaidade, a responsabilidade sobre sua manifestação concreta. Fortuna favet fortibus!
Movido por estas especulações, me reconciliei com a vaidade. Se pudesse, lhe faria uma estátua. Aliás, diante de tão importante papel, me admira que os gregos não a tenham deíficado. Os egípcios o fizeram, sob o nome Hator, que, não sem razão, possuía a forma de uma vaca. A vaidade nutre o homem.
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